sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Quando escrever era apenas uma catarse

 Quando escrever era apenas uma catarse

Era adolescente quando comecei, ocasionalmente, a escrever livros. Quase todos tinham um propósito em comum: desabafar sobre aquilo que me ia na cabeça. Não pensava em leitores, em editoras ou sequer na possibilidade de, um dia, alguém pegar numa daquelas histórias para as ler. Escrevia porque precisava de escrever.

Curiosamente, todos eles pareciam, de alguma forma, guiões de filmes ou minisséries. Na minha cabeça havia atores e atrizes aos quais dava voz, presença e sentimentos, imaginando como poderiam interpretar aquelas personagens. Nunca pensei, contudo, que aquilo que escrevia pudesse ser interessante para outras pessoas.

Passaram pouco mais de vinte anos até voltar a sentir essa necessidade. Entretanto, tinha concluído a licenciatura em Economia e desenvolvido uma paixão particular pela Economia do Desenvolvimento, talvez influenciado pelo Jubileu 2000, pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio e até pelo Live 8. A vontade de refletir sobre o mundo que me rodeava levou-me a criar um blogue, www.filipeneves1973.blogspot.com, onde comecei a colocar no papel os meus pensamentos.

O blogue acabou por se tornar outra forma de catarse. Um espaço onde podia refletir sobre aquilo que me interessava, questionar a realidade e tentar organizar em palavras algumas das ideias que me iam surgindo. E, de certa forma, continua a ser assim.

No ano passado, antes das eleições autárquicas, essa forma de pensar levou-me a experimentar algo diferente. Peguei nos meus conhecimentos de Economia do Desenvolvimento e desafiei o ChatGPT a construir programas de governo para algumas autarquias. Parti de critérios que me eram particularmente importantes: a otimização do Índice de Desenvolvimento Humano, a melhoria do índice de Gini e, simultaneamente, o cumprimento da restrição imposta pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento.

O exercício acabou por me satisfazer bastante, sobretudo porque me permitiu cruzar conhecimentos de economia, pensamento crítico e inteligência artificial na procura de soluções para problemas concretos das comunidades. Alguns desses trabalhos acabaram por ser publicados no blogue.

Foi mais uma maneira de escrever sobre o mundo que me rodeia.

Quando a catarse ganhou personagens

Anos mais tarde, senti necessidade de fazer diferente. Já não queria apenas escrever diretamente sobre aquilo que pensava. Queria criar uma história que pudesse servir de fio condutor para essas inquietações.

Os sete pecados mortais pareceram-me uma boa possibilidade. Sabia, naturalmente, que a ideia não era completamente nova. Já existia Se7en, um filme que tinha utilizado os sete pecados como elemento central de um thriller policial. Existia, por isso, o risco de a minha história ser entendida como um cliché por quem ainda não a conhecesse.

Mas isso não me impediu.

As críticas sociais já estavam na minha cabeça. Faltava criar e caracterizar personagens que lhes dessem vida.

Durante muito tempo, aquilo que escrevia continuou a parecer-me um guião para uma minissérie ou para um filme. Era exatamente o que acontecia na adolescência. Tinha atores e atrizes na cabeça, pois a todos e a todas fui dando voz, presença e sentimentos.

As personagens Raquel Santos e Alex, do meu primeiro romance, Demónios Que Nos Tentam, ficaram-me desde cedo associadas às atrizes Sónia Balacó e Adriane Garcia, que na altura participavam na novela Água de Mar.

O inspetor-chefe da Polícia Judiciária tinha também um rosto. Na minha imaginação, era o ator Adriano Luz, muito por causa da personagem que interpretou na série Sul.

Hoje, olhando para trás, percebo que essas imagens faziam parte da própria construção das personagens. Antes de terem nomes, histórias e conflitos, tinham rostos.

Quando a história começou a ganhar forma

Queria utilizar os sete pecados mortais como ponto de partida para uma crítica social. Mas rapidamente percebi que construir a narrativa como uma sucessão de crimes, um pecado de cada vez, poderia limitar a própria história.

Foi então que surgiu outra ideia. Tinha passado pela RTP um conjunto de episódios de uma série de entrevistas chamada #SóQNão, que pode ser visto na RTP Play. Foi também a partir daí que me surgiram algumas ideias para acrescentar histórias paralelas às personagens.

O amor ganhou espaço, não apenas como sentimento romântico, mas como um sentimento capaz de ultrapassar preconceitos, barreiras e ideias que muitas vezes construímos sobre os outros.

Foi assim que Demónios Que Nos Tentam começou a crescer através de histórias paralelas das personagens principais. Queria mostrar diferentes formas de amar e abordar o preconceito, mas sem transformar essas questões numa mensagem imposta ao leitor. Preferi deixá-las nas entrelinhas.

O thriller policial continuaria a ser a história principal. As restantes histórias deveriam caminhar ao lado dela, cruzando-se com a narrativa principal e dando-lhe outra dimensão.

Inicialmente, nem sequer tinha escolhido um título para o livro. Durante a escrita, criei a ideia de que os crimes estavam relacionados com um thriller policial cujo título era Demons That Tempt Us. Foi daí que surgiu Demónios Que Nos Tentam.

Interessava-me mostrar que, por trás de cada personagem, existe uma pessoa, com desejos, medos, preconceitos, contradições e sentimentos. E que, muitas vezes, aquilo que julgamos saber sobre alguém está longe de corresponder à realidade.

De quase um guião a um livro

Foi durante o período de confinamento provocado pela pandemia de COVID-19 que o livro começou verdadeiramente a ganhar forma e a parecer-me que poderia ter futuro. Até essa altura, continuava a parecer-se bastante com um guião, tal era o peso dos diálogos.

O comentário do meu antigo professor José Carlos Vilhena Mesquita, que leu o texto ainda antes do período de confinamento, acabou por me incentivar a querer passar de quase um guião para um livro propriamente dito.

Comecei então um processo que foi tão importante como a própria escrita: reescrever.

Cenas foram retiradas e outras acrescentadas. Algumas personagens ganharam maior profundidade e determinadas situações foram reformuladas. Procurei melhorar o que estava escrito e, sobretudo, perceber aquilo que faltava à história.

Hoje reconheço que me fez falta um leitor alfa durante esse processo. Alguém que lesse o texto antes de chegar à fase final e me dissesse, sem qualquer preocupação em me agradar, onde a história perdia força, onde existiam repetições ou onde uma personagem precisava de mais espaço.

Essa aprendizagem também faz parte da história deste livro.

Personagens que tinham alguma coisa para dizer

As personagens que criei tinham um propósito. Queria mostrar diferentes formas de amar, abordar o preconceito e mostrar como podemos construir julgamentos sobre pessoas que não conhecemos verdadeiramente.

Mas queria fazê-lo sem transformar essas questões numa mensagem imposta ao leitor. Preferi deixá-las nas entrelinhas.

O thriller policial continuaria a conduzir a história, enquanto as restantes histórias caminhariam ao lado dele, cruzando-se com a narrativa principal e dando-lhe outra dimensão.

Talvez seja por isso que vejo Demónios Que Nos Tentam como um conjunto de histórias que se fundem num único fio condutor. Um crime pode ser investigado e um culpado pode ser encontrado, mas os sentimentos que estão por trás das escolhas são muito mais difíceis de resolver.

E, no fundo, são esses sentimentos que nos aproximam das personagens.

Porque aquilo que elas vivem não nos é completamente estranho. Já sentimos amor, medo, inveja, raiva, desejo, orgulho ou culpa. Talvez em graus diferentes e em circunstâncias diferentes, mas são sentimentos que fazem parte da experiência humana.

Do desabafo ao livro

Quando comecei a escrever, não imaginava que um dia teria um romance publicado. Não estava a tentar ser escritor. Estava simplesmente a escrever.

Só mais tarde percebi que aquelas páginas poderiam transformar-se num livro e que esse livro poderia chegar a outras pessoas.

Demónios Que Nos Tentam acabou por ser publicado. E, nesse momento, aconteceu uma mudança importante: a história deixou de ser apenas minha e passou a pertencer também a quem a lê.

Cada leitor encontrará as suas próprias interpretações, gostará mais de determinadas personagens, questionará algumas das suas escolhas e talvez veja sentimentos onde eu próprio não os tinha pensado dessa forma.

É essa, para mim, uma das coisas mais fascinantes da literatura. Uma história começa na cabeça de quem a escreve, mas ganha uma vida diferente quando encontra um leitor.

E depois de Demónios?

Talvez a maior surpresa seja que o primeiro livro não encerrou a vontade de escrever. Pelo contrário, abriu outra porta.

Hoje existe uma nova história a ganhar forma: Arabyana.

É um livro diferente, com outro universo, outras personagens e outros conflitos. Mas existe algo que permanece: a vontade de falar das pessoas através das histórias, de explorar o poder, os interesses, os sentimentos, as escolhas e as consequências dessas escolhas.

Talvez, afinal, eu continue a escrever pela mesma razão que comecei.

Porque escrever continua a ser uma forma de tentar compreender o mundo que nos rodeia.

A diferença é que, agora, já não escrevo apenas para mim.

Escrevo também para quem quiser entrar nas histórias e descobrir, através delas, um pouco mais sobre as pessoas e sobre o mundo em que vivemos.